OLHARES

Ele saiu do terminal um minuto antes de mim. Mas antes da partida final, olhou para o meu autocarro, como se adivinhasse o que o esperava – os nossos olhares cruzaram-se por breves instantes.

Ficou anestesiado com os meus olhos azuis, que até se esqueceu de mudar o destino na bandeira para onde agora ia, qual lago enorme cheio de nenúfares viçosos.

Foi um clique intenso, ao ponto de eu ficar com um enorme desejo de sair e ir atrás dele, para dar continuidade àqueles olhares entre nós dois.

Vim sempre atrás dele até chegar a casa, qual perseguição. O meu autocarro ficou por ali, e ele lá foi abraçar a estrada mais uma vez, e cumprir a sua missão.

Hoje, quando chego ao terminal, pensei nele. Será que o ia ver de novo?

No cimo das escadas, sentado nos bancos de pedra, lá estava ele. Reconheci-o de imediato – era um jovem bonito. Estava de perna traçada, calça azul escura, ténis confortáveis de uma marca conhecida, camisa branca, casaco castanho claro de camurça, barba feita (gosto mais dele assim, de cara limpa – fetiche meu, será?), olhos castanhos, cabelo preto curto, pensativo e a observar a multidão que passava entre transportes. Tinha o telemóvel na mão direita para passar o tempo, ou quem sabe algo mais. A lancheira e a garrafa de um litro e meio de água do seu lado esquerdo eram a sua companhia.

Escrevi estas linhas sentada, poucos centímetros distante dele, e que prazer me deu observá-lo.

Hoje, quando entrei para o autocarro consegui ver ele a jantar na sua “gaiola”. Houve um momento que se sentiu observado, e olhou um pouco. Chegou a hora, eu parti rumo aos meus aposentos. E a ele, aguardava mais um turno. Um turno no silêncio da noite, com almas irrequietas.      

Uma série de dias sem o ver, mas cada vez que chego ao terminal penso nele. Olho para todos os lados em busca daquele homem, de quem eu quero saber mais. É mais forte do que eu.

Uns minutos depois, ouço um ruído feroz – era um miniautocarro. Era ele, e gosta de velocidades!

Larguei os medos, e fui em busca daquele homem, como se ele fosse o capuchinho vermelho e eu o lobo mau. Não passa de hoje, pensei.

Aproximei-me, e já com o autocarro de luzes apagadas finjo que não é ele quem eu procuro.

Ele sai e com aquela voz fofa, sussurra “Ainda não vai sair”, dirige-se a mim.

Aproximo-me dele. É agora ou nunca.

- Olá, fizeste a barba! – Digo isto olhos nos olhos.

- Hein? – questiona, admirado.

Deve ter ficado assustado, com tamanha ousadia, mas o escuro deixa-me assim.

- Sim, fizeste a barba. E confesso que gosto mais de ti assim. – reparo nas suas mãos que acariciam o seu rosto sorridente e envergonhado ao mesmo tempo.

Não usa aliança, mas não quer dizer nada. E que sorriso lindo que ele tem.

- Ah, sim. Já tava muito grande. Agora está assim. – Continua sorridente.

- És o Thiago não és?

- Eu? Não, porquê?

- Sim, tens cara de Thiago. – o que vem aí, penso.

- Sou o Roberto e você?

Outro Roberto? É só disto que me calha? Penso.

- E eu sou a Diana.

Olho de esguelha, e já lá está o meu autocarro a “carregar” as pessoas. Ele também, repara.

- Você vem neste?

- Não, eu vou naquele ali.

- Bem, é melhor ir senão você perde o ónibus.

- É verdade! – admito. Bom Turno!!

- Vá, a gente se vê por aí.

- Claro.

E sigo caminho apressada até ao meu autocarro, nada arrependida deste encontro provocado por mim.

Subo as escadas, e hoje por sinal, estão mais bem iluminadas.

É impossível não pensar nele. O meu autocarro já está com as pessoas lá dentro.

Ups, estou a ser observada. Retribuo à descarada. Fazemos a nossa troca de olhares à distância. Mal se vê o rosto dele, os seus traços.

Ele aproxima-se um pouco mais do autocarro, apercebendo-se que este está na sua hora de partida. Fica alinhado de maneira a poder observar-me melhor e minutos antes da partida, faz-me adeus e sorri. Não consigo resistir a este belo gesto. Retribuo deixando o meu fim de dia, mais feliz, e sentindo-me uma criatura sortuda ou não. Pois quem tivesse reparado, devia ter pensado que éramos íntimos. O que foi isto? O que vai acontecer a seguir? Não paro de pensar nele. Estarei apaixonada? Não sei.

Já faz uns bons anos que não me sentia assim. Só sei que estou cheia de saudades e quero revê-lo.

Quero de novo olhar para ele.

Quero de novo observá-lo de preferência olhos nos olhos, ter uma conversa com ele e ver se algo acontece.  Quero pôr-me a jeito, ser seduzida e seduzir, uma coisa que acho que até nem faço nada mal.

Será que tem pensado em mim? Será que tem saudades minhas?

Ao chegar à estação, mesmo antes de descer as escadas de acesso ao comboio, lá estava ele sentado cabisbaixo a cortar um fruto roxo redondo – era um maracujá.

Ao seu lado tinha um saco com mais fruta, um caderno A4 de capa amarelo-limão, e a sua mochila.

O meu vulto preto, de lábios bordeaux, e de imponentes óculos espelhados pára na sua frente, e ele não tem como não me dar atenção por uns segundos. Cumprimentámo-nos.

Não demorou muito a sacar-me um sorriso. Ele tem esse efeito comigo. Sentei-me ao seu lado.

Ofereceu-me a sua fruta, agradeci. Só apetecia ali ficar a ouvi-lo. Mas tive de ir.

Quando entro e os nossos olhares se cruzam é impossível não sorrirmos. E damos um cumprimento à maneira dele.  Vou em pé, junto à porta de modo a que ele me possa apreciar e eu a ele.

Continuo a gostar de o observar, sabendo que posso estar a brincar com o fogo.

Ganho coragem e entrego-lhe um bilhete com o meu número, e se ele quiser encontrar-me está nas suas mãos.  No fim despedi-me com amizade e algum desprezo, afagando o seu braço e segui o meu caminho enquanto ele seguia o dele. 

Hoje, o meu acordar foi diferente. Comecei a sentir-me molhada e a ter desejos de ter um orgasmo ao acordar, a pensar nele. Estarei a enlouquecer? Será normal?

Fui à casa de banho, e não havia dúvidas. Estava na hora de imaginar que ele estava ali, e iríamos fazer amor ao acordar. Precisava deste orgasmo selvagem como quem precisa de acordar para mais um dia de trabalho.

O telefone vibra, e é um telefonema de um número 93. Penso nele. Que mania a minha…

Atendo para ver quem é, e uma voz masculina brasileira do outro lado. Finjo que não conheço.

- Estou sim? Quem fala?

- Ai, não me digas que já não conheces a minha voz.

Fico boquiaberta, e não esperava tal surpresa…O gajo gosta de me surpreender, bem vejo. – penso.

- Ah, sim. És tu, o Roberto estou a ver. Reconheço sim. Ligaste para eu registar o teu número? Muito bem, Vou registá-lo.

- Liguei para saber como você está. Queria ouvir a sua voz linda…

(…)

- Eu liguei hoje para te fazer uma pergunta. Gostas de alguém? Estás interessada em alguém?

Ui, estou fodida!! O sacana meteu-me entre a espada e a parede com uma pinta do caraças…

- Hum….- faço-me de difícil. O que respondo?? Digo a verdade? Abro já o jogo? Ou faço-o sofrer mais um bocadinho?

- Pois, não é preciso dizer nada, porque o silêncio já diz tudo. – diz ele desiludido.

- E então? O que achas?? – questiono a medo.

Mais uma vez a vida a pregar-me uma partida, partida essa que eu já esperava a algum tempo, mas não esperava que fosse agora.

(…)

- Tu estás sozinha na tua casa, eu sozinho na minha. O que nos impede?

(...)

Já passa um pouco do meio-dia, e eu numa luta contra o tempo.

Tinha planeado entrar na casa dele a dançar ao som de uma música nova que conheci recentemente, mas não passou de meros pensamentos.

Recebe-me sorridente de t-shirt às riscas coloridas. Tem as janelas abertas e cheira a limpo por todo o lado. Anda numa roda-viva de limpezas. A casa está quase vazia.

(…)

Depois, senta-se ele e eu sento-me ao seu lado à espera que ele tome a iniciativa.

Tenho tanta vontade de namorar com ele, que às tantas sou “obrigada” a tomar as rédeas da situação e a saltar-lhe para cima. Quero namorar devagar, apreciar aquele ser que tenho à minha frente. Há anos que não estou assim com um homem, e hoje quero desfrutar disso, ou pelo menos queria…

Preciso de romance, de carinho, de sedução, de muitos preliminares…A introdução foi muito curta. Mas foi o que foi. A culpa foi minha, eu devia de lhe ter dito, talvez.

Mas comigo ali em cima dele, fica tão aceso, que me envolve nele com um jeito tão suave de fazer as coisas, ficando eu por baixo e ele por cima a dominar….

Depois de três dúzias de beijos, ele lembra-se de perguntar:

- Você fuma?

- Não, mas já fumei sim. Mas agora já não fumo.

Deve ter notado algo nos meus dentes amarelos, normal fui fumadora em tempos. Larguei esse maldito vício no ano passado…e já percebi que não lhe agrada.

Após a minha resposta, continua a fazer um belo trabalho, mas que belo trabalho meu deus…Estou a ter tanto, mas tanto prazer que nem sei se as músicas do Spotify vão abafar os meus gemidos…

(…)

Quando chegou a hora H, o seu membro está tão firme e hirto que pego no preservativo e o colocamos. Ele colabora sem pestanejar. E ai dele…

Quando eu pensava que já estava lubrificada o suficiente ele invade-me com uma ânsia e é muito bem recebido com felicidade e braços abertos. Como se recebem os novos hóspedes.

(…)

No fim, cada um limpou-se à sua maneira e vestiu-se. Ele foi para a cozinha preparar o jantar. Em modo, quero posso e mando! A partir dali, passámos a conhecidos, como se nada se tivesse passado, sinto-me incompleta. Até pensei que estivesse a preparar o almoço de amanhã, só e apenas isso.

Não existe qualquer carinho entre nós. Oferece-me um bom néctar. Não conhecia este sumo.

Fico de pé, de copo na mão a beber sumo enquanto o observo. Os papéis invertem-se. Sinto-me um homem, e ele a mulher que cozinha para mim. Ou então, ele é o meu escravo na cozinha, e eu a sua escrava na cama. Hum…não gosto disso.

(…)

Apercebi-me que não tinha um dos brincos, pois durante a nossa aventura na sua confortável cama perdi-o. Falei no assunto, e ele sabia exatamente onde estava o meu brinco. Não entendo porque não me disse mais cedo, que eu tinha perdido o meu brinco na sua cama. Que atitude tão estranha…

E mais estranho ainda, foi cheirar as suas cuecas que estavam ali numa cadeira branca na entrada prontas para ir para a máquina de lavar.

E deitar-me de novo naquela cama e beijar as suas almofadas e agarrar-me a elas. Deixei lá vestígios de batom. Foi de propósito. Quero ver a reação dele, depois.

Confesso que nunca o fiz isto noutro lado. Não frequento casas alheias, talvez seja por isso.

(…)

Quando vamos oficialmente jantar mete Mozart, a música do dia do casamento.

Estamos os dois lado a lado virados para a parede sentados, e vamos dar início à nossa refeição, e sinto que estamos os dois no altar prestes a dar o tão esperado “sim”, ambos com cara  séria, de caixão à cova. Nem um carinho, nem um abraço, nem uma festa na mão, nada. Deprimente…O que isto quer dizer afinal?? Sorrio para mim, com as mãos no meu rosto, como se tivesse a rezar. E tenho ao meu lado aquele corpo, vivo ou morto. Nem sei o que dizer…

Depois do jantar, as cadeiras são o nosso tema de conversa, aliás dele. Vai buscar uma caneta. E começa a desenhar a cadeira que está a falar. Está a recordar tempos longínquos. Aprecio as suas mãos, com as veias salientes e noto que são mãos de trabalho, já calejadas pelo tempo. São mãos com muita história…Que idade terão? Não sei, ele não diz. Nem sei se algum dia irei saber. Os homens deviam de vir com manual de instruções. Pela primeira vez, envolvi-me com um homem sem saber a sua idade.

Logo a seguir ao jantar, vem a maratona das limpezas na cozinha e eu ali, tipo segurança.

Digo que me vou embora, e ele nada faz para se despedir de mim.

Aguento, para ver até onde ele vai. Arruma tudo com muito afinco.

Aguento mais um pouco e só apetece ficar. Não dá, tenho de ir. Sou eu que tomo a iniciativa de o desconcentrar dando-lhe beijos e acariciando o seu rosto. Com este meu gesto, digo-lhe que estou aqui – abano o seu rosto. Insisto com ele, que é obrigado a não ignorar a minha presença.

Vou, mas vou incompleta.

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