OLHARES
Ele saiu do terminal um minuto antes de mim. Mas antes da partida final, olhou para o meu autocarro, como se adivinhasse o que o esperava – os nossos olhares cruzaram-se por breves instantes. Ficou anestesiado com os meus olhos azuis, que até se esqueceu de mudar o destino na bandeira para onde agora ia, qual lago enorme cheio de nenúfares viçosos. Foi um clique intenso, ao ponto de eu ficar com um enorme desejo de sair e ir atrás dele, para dar continuidade àqueles olhares entre nós dois. Vim sempre atrás dele até chegar a casa, qual perseguição. O meu autocarro ficou por ali, e ele lá foi abraçar a estrada mais uma vez, e cumprir a sua missão. Hoje, quando chego ao terminal, pensei nele. Será que o ia ver de novo? No cimo das escadas, sentado nos bancos de pedra, lá estava ele. Reconheci-o de imediato – era um jovem bonito. Estava de perna traçada, calça azul escura, ténis confortáveis de uma marca conhecida, camisa branca, casaco castanho claro de camurça, barba feita (gos...